O Império de 16 Bilhões de Dólares de Toy Story e a Nova Batalha Contra as Telas
A franquia Toy Story definitivamente não é brincadeira de criança quando o assunto é o mundo dos negócios. Ao longo das últimas três décadas, os brinquedos de Andy e Bonnie injetaram absurdos 16 bilhões de dólares nos cofres da Disney. Esse número astronômico comprova a força de uma propriedade intelectual capaz de atravessar gerações e sustentar o modelo de negócios do estúdio. E é surfando nessa onda de longevidade que Toy Story 5 chega aos cinemas no dia 19 de junho. Para Tom Hanks, que empresta sua voz ao xerife Woody desde 1995 e hoje está com 69 anos, ainda bate uma certa incredulidade. Ele mesmo admite que nenhum dos veteranos do elenco consegue acreditar que ainda fazem parte desse universo depois de tanto tempo, descrevendo o novo filme como um capítulo vibrante e essencial no cânone da saga.
Mas a nova aventura mexe em um vespeiro bem contemporâneo e abandona os vilões de plástico para enfrentar um inimigo invisível. A sinopse oficial já entrega o drama: Buzz Lightyear, Woody, Jessie e o resto da gangue batem de frente com Lilypad, um tablet novinho em folha que chega com ideias bem disruptivas sobre o que é melhor para Bonnie. No fundo, a Pixar decidiu colocar o dedo na ferida, passando a mensagem de que a tecnologia está engolindo a infância e que os pais precisam acordar para a vida o quanto antes.
Tom Hanks toca num ponto bastante sensível sobre essa dinâmica. Ele conta que há uma cena profunda em que a pequena Bonnie tem seus sentimentos feridos por causa de uma mensagem de texto no tal do Lilypad, algo que teoricamente deveria ser uma experiência coletiva e alegre. A constatação do ator é cirúrgica: “Nenhum brinquedo fere seus sentimentos se você está brincando com ele”.
Tim Allen, a voz do eterno patrulheiro espacial Buzz, segue a mesma linha e questiona se a animação terá o poder de virar a chave na cabeça do público. Ele nutre uma esperança genuína de que algumas crianças saiam da sessão e percebam que ficar grudado em um tablet não é brincar, é só injetar dopamina barata no cérebro. Allen, aliás, não poupa críticas à nossa relação doentia com a tecnologia e ao que ele chama de manipulação escancarada dos algoritmos. O ator conta que seu próprio feed vive inventando bizarrices, mostrando desde acidentes com caminhões em Singapura até aviões 747 pousando de lado na Grécia. A alienação chegou a um ponto tão extremo que ele brinca que poderia assaltar todo mundo numa cafeteria e ninguém notaria, porque até o barista estaria hipnotizado rolando a tela do celular.
Quem dá voz à controversa Lilypad é Greta Lee, que na vida real encarna o exato oposto do que sua personagem representa. Em casa, a atriz adota uma postura linha-dura com os filhos, estabelecendo limites bem claros sobre quando e quanto tempo de tela é tolerável. A briga diária é para trocar o iPad pelo contato cru com a natureza, forçando a molecada a fazer trilhas ou mexer no jardim. Greta defende algo que soa quase como uma heresia hoje em dia: aceitar e saborear o tédio. Para ela, essa é a única forma de frear o encolhimento da nossa capacidade de atenção, mesmo que isso custe algumas birras e exija um esforço contínuo dos pais.
Nos bastidores, a maturidade do elenco também mudou a dinâmica das gravações. Tim Allen relata que hoje gasta cerca de 20% menos tempo no estúdio para entregar um trabalho muito superior, já que aprendeu a focar e isolar sua voz com precisão, dispensando dezenas de repetições. Hanks concorda que o ritmo está diferente e brinca que às vezes implora para a direção dizer que a cena ficou boa porque ele simplesmente não aguenta mais gravar. Ainda assim, a pressão para não entregar nada medíocre em um filme com o selo Toy Story continua imensa.
E falando no peso do trabalho de dublagem, o talento de dar vida a personagens apenas com a voz frequentemente levanta debates sobre reconhecimento em premiações. No entanto, Hanks é categórico: o Oscar não precisa inventar uma categoria de Melhor Dublador. A lógica do ator é bem simples e vai direto ao ponto. Se uma performance tem o poder de te emocionar, ela já é válida para disputar as categorias principais. Ele usa Andy Serkis como o exemplo perfeito. O trabalho de captura de movimentos de Serkis em O Senhor dos Anéis e Planeta dos Macacos fornece toda a matéria-prima emocional do personagem, mesmo que o rosto do ator nunca apareça na tela. Para o xerife Woody, a mesma regra deveria se aplicar aos atores puramente vocais.
No fim das contas, Toy Story 5 parece usar a desculpa de uma nova missão para falar sobre vulnerabilidade no mundo real. Dessa vez, quem manda o sinal de socorro e pede ajuda à equipe é a vaqueira Jessie. Hanks confessa que ele mesmo é péssimo em pedir socorro quando precisa, e enxerga na atitude da personagem uma bela lição de vida para todos nós de que não estamos sozinhos nessa. A saga continua, mas o nível da conversa agora é outro.