Releituras nas Telas: A Sutileza de ‘The Chosen’ e o Caos Pop de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’
A indústria do entretenimento vive de resgatar histórias que já conhecemos muito bem. Seja na literatura clássica ou em textos sagrados de dois milênios, diretores buscam constantemente uma nova roupagem para velhos contos. O resultado dessas empreitadas, no entanto, pode ir da humanização profunda e respeitosa ao mais puro desastre anacrônico. Peguemos como exemplo o contraste brutal entre um dos maiores fenômenos recentes do streaming e a mais nova aposta dos cinemas.
A humanização do divino em evidência
De um lado desse espectro, temos The Chosen (Os Escolhidos). A série relata o chamado de Jesus Cristo aos seus primeiros seguidores e, com o lançamento de sua 4ª temporada, já arrebatou milhares de fãs globais. Mas como uma narrativa exaustivamente retratada em filmes, novelas e desenhos ainda consegue prender a atenção para o cotidiano de um jovem galileu? A resposta está na forma como o diretor Dallas Jenkins usa a chamada licença poética. Ele não gosta de classificar o projeto exatamente como uma releitura, pois faz questão de manter a fidelidade aos textos bíblicos. No entanto, ele preenche as lacunas da história com uma sensibilidade ímpar.
Personagens historicamente intocáveis ganham camadas humanas e complexas. Mateus, por exemplo, vivido de forma brilhante pelo indiano Paras Patel, apresenta comportamentos associados ao espectro autista. É quase impossível assistir aos episódios sem se deixar tocar por essas sutilezas. O elenco reflete essa diversidade e cuidado: o americano Jonathan Roumie dá vida a Jesus, o israelense Shahar Isaac interpreta Pedro e a americana Vanessa Benavente assume o papel de Maria. Até o Brasil marca presença com a atriz Lara Silva, que vive Éden, a esposa de Pedro.
O milagre dos bastidores
A produção deixa claro que algumas linhas do tempo e cenários foram propositalmente condensados. Diálogos e histórias de fundo acabaram sendo adicionados à trama para dar fluidez, mas tudo isso foi arquitetado para dar suporte ao contexto histórico e à intenção verdadeira das Escrituras. Curiosamente, o próprio surgimento da série carrega uma aura de milagre para Jenkins. Antes desse sucesso, ele vinha de um projeto fracassado e estava totalmente desacreditado.
Em um momento de oração profunda, o diretor sentiu que a matemática divina funcionava de um jeito diferente. Não era a primeira vez que ele apostava alto. Jenkins estreou aos 25 anos com o longa independente “Hometown Legend” e, nas últimas duas décadas, dirigiu e produziu dezenas de projetos para gigantes como Universal, Lionsgate, Hallmark, Pureflix e Amazon. O cuidado forjado por esses anos de experiência transparece na tela.
O outro lado da moeda: um clássico desfigurado
Enquanto The Chosen utiliza a imaginação artística para apoiar a essência de sua fonte material, outras produções tomam um caminho vertiginosamente oposto. Se você pisar no cinema hoje, vai dar de cara com a nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell. E, dependendo do seu grau de paciência, a exaustão já começa nos trailers que dominaram os últimos meses. Para quem leu o romance original de Emily Brontë, as prévias soavam tão estrondosamente bobas que o sentimento de desaprovação era imediato. Contudo, é difícil manter o desdém aceso por muito tempo. Um cinismo cansado acaba tomando conta, sendo essa a única forma de lidar com a visão de mundo de Fennell.
Aos 40 anos, a diretora parece operar com a sensibilidade de uma adolescente de 14 anos rindo de piadas de duplo sentido. O filme entrega exatamente o que se espera de um caso de desenvolvimento interrompido. A própria diretora já declarou que queria honrar a excitação que sentiu ao ler o livro pela primeira vez na adolescência. Como consequência, temos Margot Robbie e Jacob Elordi vagando pelos pântanos com figurinos absurdos, tentando representar pessoas de uma época não especificada, enquanto transam ao som de Charli XCX. É como assistir a um derivado bizarro de Barbie focado em angústia adolescente.
Entre o erotismo barato e a realidade cruel
Ninguém nega que existe um apelo erótico subjacente na obra de Brontë. Até a série animada Os Simpsons já brincou com isso em um episódio em que a família vive como em 1895, e Homer faz uma insinuação sexual infame para Marge usando o título do romance. Acredite, a piada de Homer representa o ápice da sofisticação perto do que Fennell entrega nos cinemas.
Ela achou que seria genial abrir o filme com sons de respiração ofegante e gemidos intensos. Quando o espectador tem certeza de que vai assistir a uma cena de cópula entusiasmada, a câmera revela um homem sendo enforcado. A multidão que assiste ao espetáculo macabro — incluindo a versão infantil de Cathy (Charlotte Mellington) e sua jovem cuidadora Nelly Dean (Hong Chau) — fica animada ao notar que o homem moribundo tem uma ereção. Em segundos, os espectadores ao pé da forca começam a simular movimentos sexuais.
Essa tentativa de chocar e estabelecer uma ligação crua entre sexo e morte soa extremamente forçada. No século XIX, essa relação já era brutalmente clara na vida cotidiana, em destinos muito mais comuns que enforcamentos públicos. Mulheres morriam no parto com uma frequência assustadora. Obras como The Testament of Ann Lee ilustram bem o pesadelo que era a vida conjugal da época: engravidar, arriscar a vida em partos sangrentos, ver os bebês morrerem e repetir o ciclo incessantemente. Isso sem mencionar doenças venéreas incuráveis, como a sífilis. Ler sobre os sintomas letais dessa doença na época é suficiente para nos deixar maravilhados com a coragem de quem ainda se arriscava a fazer sexo.
O público, o elenco e os clichês cansativos
Como O Morro dos Ventos Uivantes estreou estrategicamente no Dia dos Namorados deste ano de 2026, encontrou seu alvo em cheio: mulheres buscando emoções românticas nas salas escuras. O cinema estava dominado por elas, de grupos de adolescentes empolgadas a senhoras grisalhas. Os únicos homens presentes eram figuras de meia-idade constrangidas, agindo como maridos de sitcom que foram arrastados à força para o passeio. Sentir-se parte de um cenário tão antiquado e baseado em binarismo de gênero em pleno 2026 foi, no mínimo, desconcertante.
No meio desse caos visual, Margot Robbie e Jacob Elordi fazem o que podem. Eles estão espetacularmente mal escalados como a aristocrata rural empobrecida Cathy e seu misterioso amor proletário Heathcliff. Como o roteiro reduziu os personagens a figuras unidimensionais de novela, falta material para os dois trabalharem. Robbie carrega uma persona moderna demais. Ela nunca soa tão falsa quanto no momento em que interpreta o clichê mais exausto dos filmes de época: a mulher encurralada pelo espartilho, exigindo de forma masoquista que ele seja amarrado “mais apertado, mais apertado”. Elordi não tem melhor sorte. Ele definitivamente não convence como o anti-herói byroniano de coração sombrio. Sim, ele é alto, tem um tom de pele bonito e fica ótimo usando costeletas. A coisa toda para por aí, lembrando mais um daqueles modelos de capa de romances baratos de banca de jornal do que a figura atormentada que Brontë imaginou.