O Vai e Vem dos Catálogos: Da Febre dos Robôs ao Adeus a Uma Comédia Querida
O ecossistema dos streamings vive de ciclos, uma troca constante entre o que ganha os holofotes do momento e aquilo que desaparece silenciosamente na calada da noite. Recentemente, a DreamWorks acertou em cheio com o lançamento de Robô Selvagem, uma animação que caiu nas graças do público e da crítica com uma facilidade impressionante. A obra dirigida por Chris Sanders, o mesmo cara por trás de Como Treinar o Seu Dragão, pescou a essência do romance do Peter Brown e entregou uma jornada de sobrevivência absurdamente sensível. Ver a robô assistente Roz tentando se virar numa ilha habitada só por animais e acabando por adotar um ganso órfão mexeu com a galera a ponto de o estúdio já garantir uma sequência no forno, surfando no sucesso comercial. E essa onda gerou um efeito colateral bem familiar: aquele desespero bom de caçar o que assistir na mesma pegada.
Se a ideia é explorar essa relação torta entre humanos, bichos e lata velha, as plataformas estão cheias de opções que flertam com o mesmo conceito. O Disney+, por exemplo, é um prato cheio. Lá você tropeça em Ron Bugado (2021), que pega no ponto fraco da exclusão social ao colocar um moleque solitário e sem grana ganhando de aniversário um robô B-bot todo defeituoso. A dinâmica de amizade que nasce do erro de sistema é de aquecer o coração. E já que estamos falando da casa do Mickey, é impossível não esbarrar no clássico absoluto WALL-E (2008), da Pixar. A Terra virou um lixão distópico, e no meio dos destroços, o robozinho faxineiro se apaixona pela sonda EVA. É a quintessência do romance cibernético.
Ainda no catálogo do rato, temos Operação Big Hero (2014), que traz o prodígio Hiro Hamada buscando conforto no luto ao lado do Baymax, aquele robô médico inflável criado pelo irmão dele, formando uma equipe de heróis desajustados. Quem prefere algo um pouco mais focado no choque corporativo pode dar play em Robôs (2005), acompanhando o sonhador Rodney Lataria tentando a sorte grande em Robópolis, apenas para esbarrar nos planos maléficos da nova diretoria da empresa do seu ídolo, o Grande Soldador. E, puxando um pouco mais para a ficção científica de resgate, vale lembrar de Marte Precisa de Mães (2011), baseado no livro de Berkeley Breathed, sobre o guri Milo que só dá valor à mãe depois que ela é abduzida por marcianos.
Pulando para a concorrência, a Netflix também tem suas cartas na manga. Next Gen (2018) é um achado que coloca a adolescente rebelde Mai lado a lado com uma máquina de combate clandestina, o 7723, para bater de frente com uma mega corporação num mundo onde androides são banais. Se o foco for mais nos animais lutando contra a tecnologia, Pets Unidos! (2019) coloca o cachorro Roger e a gata mimada Belle para peitar um exército cibernético. E num delírio um pouco mais conceitual da Sony, Emoji: O Filme (2017) joga o espectador para dentro de um smartphone em Textopolis, onde o emoji Gene embarga numa jornada caótica tentando ter apenas uma única expressão, como todos os seus amigos.
Mas enquanto a gente se entope de animações para processar o hype do momento, as gigantes da tecnologia aproveitam a distração para fazer a limpa nos servidores. E dessa vez, a vítima na Netflix é daquelas de doer no peito. Depois de anos reinando como o porto seguro de muita gente, a plataforma está se preparando para remover Kim’s Convenience de todas as suas regiões globais logo no início do verão do hemisfério norte.
Para quem acompanhou a trajetória da família coreano-canadense tocando a lojinha de conveniência no bairro de Moss Park, em Toronto, a notícia tem um gosto bem amargo. A sitcom estreou na CBC em outubro de 2016, nascida de uma peça de teatro do Ins Choi que já tinha feito barulho nos palcos em 2011, chegando a beliscar uma indicação ao prêmio Dora Mavor Moore de Melhor Peça Inédita no ano seguinte. O próprio Choi tocou o barco da adaptação televisiva junto com Kevin White. O elenco era puro entrosamento: Paul Sun-Hyung Lee como o teimoso Appa, Jean Yoon na pele da Umma, Andrea Bang como Janet, além do Andrew Phung (Kimchee) e da Nicole Power (Shannon). Mas o grande estouro ali foi mesmo Simu Liu, o Jung, que usou a vitrine da série para pular direto para o universo da Marvel como Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis.
Foram 65 episódios de um timing cômico impecável, o formato perfeito para maratonar sem ver o tempo passar, até o adeus definitivo na TV em 13 de abril de 2021. A Netflix havia pescado os direitos globais de streaming lá em 2018, quando soltou as duas primeiras temporadas de uma vez, e depois passou a lançar os anos seguintes logo após a exibição original no Canadá. O motivo do facão agora é puramente burocrático, resumido à validade dos contratos de licenciamento. A plataforma costuma alugar o conteúdo de terceiros por um período exato de cinco anos após a adição da última temporada. A conta bateu. É a realidade meio cínica do consumo digital de hoje em dia, onde a gente cria laços com essas histórias e personagens, monta nossas listas de favoritos, apenas para descobrir do nada que o catálogo é um terreno alugado.